Vamos lá!

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"Quando deixamos determinado lugar, deixamos para trás um pedaço de nós – permanecemos lá, apesar de partirmos. E há coisas em nós que só podemos recuperar se voltarmos para lá. Viajamos até perto de nós, para dentro de nós mesmos quando um ruído monótono das rodas nos transporta em direção a um lugar onde passamos uma parte de nossa vida, por mais breve que tenha sido. Assim que colocamos, pela segunda vez, o pé numa estação estranha, escutando as vozes nos alto-falantes, sentindo os cheiros inconfundíveis, não apenas chegamos ao lugar distante, mas também na distância do próprio interior, num ângulo talvez bem remoto do nosso "eu" que, quando estamos em outro lugar, permanece oculto e completamente entregue à invisibilidade.” 

(Trem noturno para Lisboa – Pascal Mecier; tradução de Kristina Michahelles – Rio de Janeiro: Record, 2009)


Berlin at a glance...and a glass of beer...Proust!

Imagina você pegar um trem na Dinamarca rumo à Alemanha mas sem estar certa de que vai parar na cidade que vc quer. Leu o post anterior né?...
Enfim, eu estava indo para Berlin mas acabei tomando um trem que parou em Hamburgo!...E era ceeeedo, 5 da manhã...ai ai ai ok no problem, foi só ir até a máquina de tickets e comprar o trecho que faltava.

Foram apenas 2 dias em Berlin porque não estava originalmente no roteiro dessa viagem, mas acabou acontecendo por conta de...uma desilusão afetiva. A viagem inicial era Estocolmo-Copenhagen-Amsterdam (ida e volta com conexão em Lisboa), mas saí da capital sueca antes do previsto. Ué gente, eu não havia ido lá só pra comer Kanelbullar não! rsrs 
O fato é que ganhei uns dias 'extras' que distribuí pelas demais cidades e fiz um pit stop nesse lugar carregado de História; valeu muito a pena mesmo que tenha sido rápido.

Foi a única noite nesse tour, em que fiquei num hotel. É claro que eu havia consultado meu blog-guru e já sabia aonde me localizar, então reservei um lugar na área de Rosenplatz, bairro de Mitte, ótimo lugar com muito comércio, transporte e dava para ir a pé até Alexanderplatz.


Pra chegar lá, era só pegar o Tram (VLT) em frente à estação central de trem (Hauptbahnhof), só que na parada a maquininha de tickets estava quebrada. Como eu não sabia que dava pra comprar dentro do tram, voltei pra estação, descobri que havia uma lojinha deles e fui lá, no meio da compra acabei me tocando que estava errado e pedi para trocar, trocaram, devolveram a diferença, me deram o certo, ufff tudo em alemão (eles, pois não falo) e mímica (eu) rsrs. A atendente conseguiu me explicar em algo de Inglês que...ela não sabia pra que direção eu tinha que pegar o Tram. (!)
Custou um pouco, mas cheguei!

Achei todo o capítulo de Berlin o mais "gente como a gente". Trem com atrasos e essas pequenas falhas tipo a máquina quebrada, na rua o povo atravessando fora do sinal mesmo, calorrrrrrr kkkkk era engraçado porque por um lado era tão familiar e por outro me surpreendia aquela quebra de protocolo alemã. Metrópoles, são todas iguais..Será mesmo?

Como eu tinha pouco tempo, o 1o passo foi fazer um tour geralzão no Berlin Bus para depois escolher descer em alguns lugares. Mas não sem antes caminhar até Alexanderplatz com sua icônica Fernsehturm, que é uma torre de tv. Pois é, as metrópoles podem ser parecidas entre si, mas não são iguais. Berlin foi fundada no séc. XIII, foi capital da Prússia, da República de Weimar, do Terceiro Reich, ficou um ruínas, se reconstruiu, foi dividida entre 2 países, controlada por 4 representações estrangeiras, se reunificou e hoje é a capital de uma das nações mais poderosas do mundo. Alguém aí me corrija, se eu estiver esquecendo alguma coisa.

O Muro
Existem muitos 'muros' virtuais que conhecemos, e inclusive são parte non grata do nosso cotidiano, as fendas entre classes sociais por exemplo. São fortes e os sentimos.
Ver os restos do Muro, uma barreira física e palpável, e imaginar a divisão da forma em que foi feita, choca. Todo o traçado segue presente sobre o asfalto, sobre as calçadas, qual cicatriz.
E realmente, é. 
Os fragmentos que ainda estão de pé formam um memorial ao ar livre, e sobretudo na área do rio foram cobertos com  pinturas e mensagens de paz.

Checkpoint Charlie, antigo posto militar ente as zonas americana e soviética, hoje é um ponto turístico dos mais concorridos. Há um museu que fica bem em frente, tem um acervo enorme sobre a história do local e vale a pena ver. Sinceramente acho que nem almocei esse dia, comi algo no caminho para o Jewish Museum, obra do Arquiteto Daniel Libeskind que estava na minha lista de "passar dos livros para a vida real". 
Resolvi ir andando e...nossa, andei, gente, andei muito rsrs acho que devo ter dados umas 2 voltas nas ruas de trás perto do Museu e não encontrava, até que cheguei e pra mim essa visita valeu toda a caminhada, o edifício é muito interessante em seu interior.

TODO o propósito do museu está magnificamente expressado numa sala, a Torre do Holocausto. 
Vazia, com 24 metros de altura fria e uma aresta agudíssima que culminam num teto preto de onde entra luz apenas por uma fresta lá em cima.
Quase ninguém se aproxima do canto, todos se sentem num poço mortal. O projeto merece todos os aplausos.

Depois de tanta intensidade histórica, eu precisava mesmo era de um bom drink para celebrar a viagem (sim, sempre há uma boa desculpa) e acabei encontrando um lugar bem gostosinho e informal chamado Clärchens Ballhaus, já no bairro de Mitte, uma casa que era um antigo salão de baile com pátio, achei curioso que era só chegar e sentar, como estamos acostumados aqui no Brasil, e não esperar a recepcionista te levar à mesa como nos EUA ou outros locais que visitei. Não digo que Berlin é gente como a gente?! rsrs 

No dia seguinte deixei a mala pronta e fui dar uma última voltinha no meu tour Berlin at a glance (= Berlim resumida)
Cruzando pela Av. Karl Marx, é notória a diferença entre as áreas Leste (Oriental) e Oeste (Ocidental) e interessante observar as tipologias dos conjuntos residenciais de herança racionalista. 
A área do Portão de Brandemburgo estava em obras, o Parlamento, a Filarmônica, e muito mais, ficaram para uma próxima visita.

Ainda faltava aquele capítulo pintoresco que busco em cada lugar que visito. Perambulando, acabei encontrando uma cervejaria enorme daquelas que devem ficar lotadas aos sábados, com alemães bêbados cantando em voz alta. OK, era um dia de semana à tarde e aquilo estava longe de parecer uma Oktoberfest, mas mesmo assim entrei e pedi meu salsichão, salada de batatas e uma boa caneca de cerveja gelada. Eu não curto tanto cerveja mas...estava me despedindo da minha rápida visita à Alemanha e o brinde era inevitável. Proust!


Hamlet, LEGO, Hans, Carlsberg, Vikings, welcome to Denmark!!

"(...) Muitas vezes, à noite, a Pequena Sereia o via sair ao mar em seu esplêndido barco com bandeiras hasteadas, ao som de música harmoniosa.
Espiava do meio dos juncos verdes e quando o vento levantava o longo véu branco e prateado e pessoas a viam, imaginavam apenas que era um cisne estendendo as asas." 


A Pequena Sereia saiu dos contos de Hans Christian Andersen para acompanhar a entrada e saída de embarcações na cidade. Em bronze, pousada sobre uma pedra, ela está lá e recebe muitas visitas diariamente. Quizás já nem nos veja, meros turistas, pois mantém o olhar fixo no horizonte e na movimentação do porto de København.

Eu fui visitar a Sereia sim, mas antes de seguir viagem. Na chegada à Dinamarca minha porta de entrada foi a incrível ponte-túnel do estreito de Oresund que foi construída nos anos 90. A vista é linda e a foto aérea é mais espetacular do que a real sensação in loco de 'afundar' no mar.

Fiquei em Frederiksberg que é como um bairro porém administrado de forma independente em relação à cidade, tipo um município mesmo. 
Como sempre, uma das coisas mais bacanas de ficar em casas de amigos é que dá para experimentar bastante do cotidiano local. Optei por caminhar pelo bairro que tem vários jardins chamados "Haves" ótimos para um passeio bucólico.

O centro de Copenhagen possui uma grande zona para pedestres com muitas lojas e atrações, o Strøget, e o bacana é ir disfrutando de toda essa "walkability" para conhecer tudo.
Nyhavn é "o" lugar, pelo menos pra mim o mais legal. Afinal, não tem erro: bares com mesas na calçada, canal com barcos atracados e saindo para passeios, edifícios históricos, gente circulando...bingo!
A casa mais antiga data de 1661...normal, você tá tomando uma taça de vinho naquele ambiente que é apenas...do séc. XVII , demais!
E foi bom demais chegar bem na semana de um dos maiores festivais de jazz europeus, a cidade era uma festa! Havia vários palcos montados pela rua além dos concertos em locais fechados.

A região intitulada Fristaden Christiania ("Cidade Livre de Christiania") é um capítulo aparte com seus aprox 800-900 habitantes que se autoproclamaram independentes do Estado Danés (!) a partir da ocupação de terrenos abandonados pelo exército em 1971. 
A maioria trabalha com artesanato e se gestionam de forma comunitária.
A venda de drogas ditas "leves" é normal e realizada nas ruas mesmo, algumas bebidas e alimentos são mais baratos do que em Copenhagen pois não têm impostos e no portão de saída se vê a inscrição «You're now entering the EU» ("Você está entrando na União Européia", pois eles se consideram fora da UE). O governo, apesar de enviar a polícia para realizar blitz periódicas, faz vista grossa ante a situação e com toda essa lendária trajetória, é claro que o lugar virou point turístico.

Paramos para comer ali por perto e, como em quase todos os restaurantes, há que fazer o pedido e pagar no balcão. O garçon só vem trazer o menu e a refeição.
A culinária danesa tem bastante peixe e carne, seria um mix escandinavo-francês-alemão. No almoço é comum eles optarem por um tipo de bruschetta fria de pão de centeio com saladas o arenque e pastinhas, por exemplo. 
A cerveja Carlsberg é a mais famosa e vale a pena ir conhecer a área da fábrica, que aliás, fica em Frederiksberg. 
Tem um projeto grande rolando ali e a parte já desativada será incorporada a um grande bairro novo com residências, lojas, restaurantes. Do outro lado, a antiga vila operária foi convertida em residências unifamiliares um tanto exclusivas, com cada jardim que fiquei babando.

A Dinamarca foi uma das grandes influências de Walt Disney, não 'apenas' pelos contos de Andersen que foram adaptados para o cinema, mas também pelo Tivoli Gardens, um parque de atrações inaugurado em 1843 e que serviu de inspiração para Disney World. Era domingo e o Tivoli estava repleto de famílias, a despeito do clima que oscilava entre quase-sol e pancadas de chuva, pelo jeito eles estão acostumados já que sol estável não é o forte ali. Eu voltei a ser criança e matei as saudades dos carrinhos bate-bate!!


Saindo da parte mais tradicional, há ainda muito para se ver. Vale a pena um passeio pelo canal principal para observar a Arquitetura e Design que vem surgindo nas margens, obras de grandes escritórios tomando forma, um novo masterplan para a zona ainda menos ocupada, etc. Dá pra sentir que é uma atividade pujante, com muita produção contemporânea.

Para ver a cidade do alto, fui ao Bella SkyBar no Hotel AC Bella Sky, um bar muito cool, bem bacana. Para quem vem de uma cidade de geografia exuberante como o Rio, pode resultar aquém das expectativas o fato de observar um relevo tão plano, mas considero sempre válido fazer uma leitura panorâmica dos lugares que visito.


A maioria dos turistas vai a Copenhagen e disfruta a cidade, que é muito bacana. Eu ainda tive a  sorte de curtir um autêntico (rsrs) churrasso dânes-brazuca preparado por meus anfitriões com uma excelente picanha local e...caipirinha, fechando com chave de ouro meus dias ali.

Mas a história não acaba aqui...estava na hora de pegar o trem. Chegando na estação, nenhum dos avisos mostrava trem com destino a Berlim saindo 7:20pm. Era domingo e o posto de informações estava vazio. Na plataforma, um fiscal disse, sem muita convicção que esperasse ali mesmo, pois deveria estar a caminho. OK. Esperei, veio um trem que dizia Hamburgo, acho que era horário 7:18pm. Hamburgo é Alemanha né? Vai ver que fazia escala lá. 
Subi.
A fiscal apareceu e pedi pra falar com ela, que estava ocupada, olhou rapidamente meu ticket e disse "OK ok it´s right. I´ll be back".
O trem saiu.
Dali a uns 20 minutos, quando já estavámos alcançando a zona rural, ela retornou e veio clicar o ticket. E aí...
"Oh oh, this is not a train ticket. It´s a bus ticket."
Eu havia comprado uma passagem de ônibus por engano no site em alemão.
Genteeeeeee, não fiquei em pânico. Apenas perguntei o que eu devia fazer agora?!
A fiscal, reconhecendo que também  havia se enganado, apenas me orientou a descer em Hamburgo e comprar o trecho final lá. Uffff!!
Eu tinha 6 horas de viagem pela frente e o melhor seria dormir. Guten Abend, see you soon Germany!!


Hallå Stockholm

Há 2 ou 3 anos eu estava nos Estados Unidos conversando por Skype com meu amigo João Miguel, que há 14 anos mora na Dinamarca, e disse a ele que tinha vontade de fazer um tour pelo norte da Europa e que iria visitá-lo. Fui primeiro ao Japão, Itália, USA de novo, Colombia, Cuba, Argentina, Uruguay e finalmente em junho de 2016 peguei o trem para a visita prometida...mas,...trem?...você mora no Rio...não seria "avião"? 
Sim, moro, só que eu cheguei a Copenhagen no trem que percorre a notável ponte-túnel sobre (e sob) o estreito de Øresund. 
O primeiro destino dessa viagem havia sido a terra de Bergman, de Garbo, Ibrahimovic, Abba e Roxette...Välkommen till Svenska!


Estocolmo

Desembarquei na Suécia na véspera do Midsummer, que é a celebração do solstício de verão e cuja data varia um pouco de acordo com cada país aonde é festejado. Uma das características desse feriado são as danças ao redor do majstången (mastro de maio) e as coroas de flores que as meninas usam, além de todos entoarem canções campestres. A cidade não estava muito cheia porque a maioria das famílias vai para suas casas de campo festejar, mas as que ficam se reúnem nos parques. 
Foi uma imersão imediata em parte da cultura local, já que é uma data tão ou mais importante que o Natal, por exemplo.
O clima estava ameno, eu cheguei a querer ensaiar uns passinhos daquela curiosa dança mas fiquei na minha porque não sou de chegar assim na terra dos outros sem antes observar alguns códigos comportamentais rsrs imaginem a brazuca querendo requebrar ali!


Mas enfim, o que esperar quando se vai para um país nórdico? 
Primeiro e fundamental, o idioma. Mêeeeeeu, que língua difícil. É claro que quis aprender algumas palavras, que pelo menos funcionavam bem se acompanhadas de um sorriso rsrs. 
Hallå é "olá"...Sim, mas você só vai se tocar que soa como "hello" quando sacar que a letra 'a' com esse 'o' encima tem som de...O.
Mitt namn är Débora. Legal. Aprendi que se o 'a' tiver a trema acima soa como 'e'. Mas bonitinho mesmo achei o 'obrigada' deles: tack.
No mais, era como estar escutando japonês, ou grego. Pronuncie 'ursäkta mig' corretamente, quero ver! rsrs
E 'skål' te lembra algo? Lembre do 'o' sobre a letra 'a'.

Em segundo lugar, algo que me surpreendeu: eu esperava me sentir uma ET em meio a louros e platinadas com 1.90m de altura. 
Nada disso, pelo menos na capital o que encontrei foi um povo bem miscigenado nas ruas. A Suécia vem recebendo muita imigração pois é um dos países europeus mais pacatos e com uma ótima qualidade de vida, apesar de caro e com certo déficit habitacional.


Os suecos têm um hábito muito bacana que é o tal do 'Fika', que em geral se refere à pausa para um café, mas na verdade eles aplicam a outras pausas tipo um encontro de amigos para um bate papo no bar da esquina. Tive a oportunidade de participar de um típico Fika familiar numa tarde chuvosa de domingo onde provei uma das melhores tortas de frutas vermelhas com chantilly caseiro da minha vidaaaa, mas o doce do fika por excelência é o Kanelbullar, um roll delicinha de canela. 
O fato é que esse costume de se reunir gera um ambiente alegre e, durante o verão, até mesmo festivo nas praças e foi algo que descobri assim que comecei a desbravar o centro turístico da cidade.

Estocolmo é formada por um arquipélago e Gamla Stan é o nome da área da cidade antiga. O belo conjunto arquitetônico que mezcla torres medievais, barroco, germânico em tons de marrom e bege, deixa o skyline com uma cara de "cidade de chocolate e de conto de fadas". Tem o Palácio Real com a troca de guarda, o Riksdagen (Parlamento), a bela Catedral, o Museu Nobel e, o melhor de tudo, pequenas surpresas que só serão descobertas se vc deixar o mapa de lado e apenas caminhar pelas ruas de estilo medieval.
Acho que a melhor pedida é andar bastante pelo centro 'Gamla' e depois pegar um tour pelos canais para ir parando nos pontos de interesse, que são vários.
Pro lado do porto turístico de cruzeiros dá para ter uma bela visão panorâmica e visitar o 'descolado' Fotografiska Museet, daí subir caminhando para o lado de Södermalm  passando por antigas casas de madeira das primeiras épocas da cidade.



Aliás, nos canais a água é tão limpa que é possível praticar pesca esportiva urbana pra valer, sabiam? 
Isso mesmo,  p e s c a r   s a l m ã o   n o s   c a n a i s    d a   c i d a d e.  E lá estão as placas, com fotos e info sobre os peixões que chegam a encontrar ali.
Se tem uma iguaria nórdica (pois não é exclusividade sueca) que adoro é o Gravlax, salmão marinado por alguns dias em sal, limão e endro (que é um tempero típico utilizado também no Sill de arenque).


Nessa relação com a água, também através dos lagos e mares, talvez um dos fatos mais curiosos na História seja o do Vasa, uma espécie de Titanic medieval. 
O Vasa era um navio de guerra, mas naufragou após velejar por menos de 1 milha náutica (aprox. 1.8 km) em sua viagem inaugural em 1628. Ele ficou no fundo do mar até os anos 60, quando foi retirado praticamente intacto e restaurado, para a nossa sorte estar hoje exposto com toda sua grandiosidade. Incríveeeel!
Vasa Museet é parada obrigatória para quem for a Estocolmo!...e fica próximo ao Museu Nórdico Nordiska, que também vale ser visitado, mas com tempo pois é longo e o Vasa te deixa meio que saciado pela tarde toda.


E já que era verão, façamos um churrasco, não é mesmo? Churrasco. É claro que não foi um tíiiipico almoço local rsrs; o anfitrião casado com uma brasileira, havia suecos, norueguês, ucraniano, chinesa, brazucas. Tomando caipirinha e escutando música cubana. F*ck ghettos, viva a globalização!!
Foi uma tarde muito agradável em Mariefred, uma cidadezinha próxima. 
Daí a tarde parecia que queria se transformar em noite mas...que nada, nessa época do ano mesmo às 3 da madrugada há claridade. Você tem que acostumar o seu corpo a ir dormir para manter o descanso necessário em dia. Deve ser  a compensação de tantas horas sem luz durante o inverno (que não quero nem imaginar como é). 


Era chegada a hora de partir. O trem que seguiria até Malmo para de lá mergulhar no Mar Báltico/Oresund, chegou manso na estação. Eu tinha pela frente 3 horas para paisagens e pensamentos, até chegar ao meu próximo destino. E assim, me despedi.

fotos: Débora Bessa 
foto de entrada: Trip Advisor

Pa´Cuba voy!

Eu sabia que não fizesse logo este post, ia ter gente me xingando rsrs. E acabou demorando, mas aqui está!
Cuba desperta tanta curiosidade que creio que desde Tokyo, onde estive há 2 anos, este seja o lugar mais intrigante que visitei, para mim e para muitos dos que me lêem.


Antes de ir tratei de me informar bastante no meu blog "guru", o Viaje na viagem, e com dois amigos que já haviam estado lá; eu sabia que o acesso à internet seria escasso e a idéia era pelo menos ter a questão de hospedagem e escapada para algum dos Cayos pré-resolvida. 
O visto é muito simples, fornecido por US$ 20 pela própria Copa Airlines no aeroporto, no meu caso na conexão no Panamá, para outras cias. melhor checar primeiro. A chegada e verificação em Migraciones foi igualmente "desburocratizada". 


A melhor opção foi alugar um quarto numa casa cubana através do site www.casaparticular.com, a oferta é grande e variada e além de mais barato que ficar num hotel, é muito mais autêntico. Acabei escolhendo um lugar no bairro de Vedado, eram dois apartamentos com vários quartos administrados por dona Rosa e sua mãe. Inclusive deixei combinado com elas o taxi que me levou do aeroporto até o local por 25 CUCs, que é a moeda cubana para os turistas (existe outra moeda local para os cubanos) e pasmem...cotação 1 a 1 com o Euro. $$$$
O Vedado é quase totalmente residencial e cheio de antigas mansões que foram abandonadas pelas famílias ricas que partiram para Estados Unidos quando explodiu a Revolução Cubana e seus bens foram confiscados. O fato é que você caminha pelas ruas e vê aquelas casa enormes, de traços bonitos mas decadentes em quanto à conservação, agora ocupadas por famílias mais humildes e alegres, numa paisagem urbana única.




Cheguei no fim de uma tarde meio chuvosa e me deparei logo com um fenômeno natural comum ali quando o oceano está bravo, a "penetración del mar". Estava eu lá, toda contente no Jazz Café e me avisaram que ia fechar pois a água inunda do Malecón até 1km terra adentro. Peguei um taxi e no afã de não entregar os pontos, pedi uma dica de onde ir. 
Dos Gardenias, um bar de boleros que parecia saído de um filme. Balcão, umas poucas mesas, um pequeno palco com iluminação de LED verde ou lilás, e nada mais. Naquele ambiente meio kitsch turistas sorriam quando algumas meninas vinham até suas mesas para tomar um drink e quem sabe dar-lhes alguma alegria extra mais tarde. Alguns viajantes "comuns" como eu, se misturavam a eles. Pedi meu mojito e me diverti com aquela situação que era um tanto inusitada. Aí o show começou e o lugar mostrou ao que veio: Cuba é música, e música de qualidade. Tin tin Dos Gardenias!


O dia seguinte reservei para minha incursão ao mundo maravilhoso de La Habana Vieja!!
Fui até a praça Parque Central e daí desci caminhando pela rua Obispo, e o deleite só foi crescendo.
A minha experiência foi muito parecida a New Orleans, ir caminhando e curtindo um som aqui e outro ali. Me corrijo: som não, sonzeira!
Impossível não sorrir, impossível não gostar.  O cubano é um povo extremamente musical e consequentemente alegre, apesar de todas as dificuldades notáveis na vida de fato não perderam seu frescor, e Habana vieja é o melhor lugar para vivenciar isso.


Me surpreendeu positivamente a sensação de segurança, é bem verdade que nós viajantes temos sempre uma cota de encantamento que nos deixa um pouco mais relaxados, mas de fato me senti muito mais segura caminhando por ali do que por Copacabana. Um taxista me comentou que se um cara é pego com um canivete pode ficar até 3 anos "dentro", pois o país sabe que o turismo é sua principal fonte de renda e deve cuidar muito bem dela. E dá pra notar o interesse deles em perguntar de onde somos e se estamos gostando.
A gastronomia é bastante limitada, em 1 semana não comi absolutamente nada delicioso. Os bifes de carne suína ou de vaca levam apenas sal e pimenta, o arroz costuma vir com um caldo ralo de 'frijoles' já misturado, longe do feijão preto como conhecemos. 'Ropa vieja' é uma carne desfiada que quebra o galho se quiser algo com um pouco mais de sabor. Mas, quem liga pra isso quando se tem os melhores mojitos?! Pelo menos por 1 semana, deu pra levar na boa rsrs

Uma visita à famosa Bodeguita del Medio é obrigatoria, o local foi frequentado pela bohemia artística e política desde os anos 40 e as paredes estão cheias de assinaturas de visitantes do mundo todo, é claro que deixei a minha :P e log depois fui visitar o Museo del Ron de Havana Club que explica, numa visitinha curta, a produção doa bebida cubana por excelência.
Sentar num dos restaurantes de Plaza Vieja também é uma grande pedida, como boa flanêur sempre busco uma mesa panóptica desde onde posso observar. E é maravilhoso o que se vê e escuta ali.
À noite a pedida foi jazz no conhecido La Zorra y el Cuervo, perto do Hotel Nacional, todo mundo sabe onde fica.


A ausência quase total da internet faz com que a dinâmica entre as pessoas seja bastante diferente do que vivemos hoje em dia, inclusive eu. Nos bairros, é comum ver vizinhos reunidos na frente das casa e prédios para jogar dominó ou simplesmente conversar. Nos restaurantes...sim, as pessoas conversam e não ficam olhando o celular! Será que a gente lembra como era viver assim? 
A sociedade está se abrindo aos poucos aos fatores externos, é comum ver grupos de pessoas reunidas na frente de hotéis para "pescar"o wifi e a enorme fila na frente dos (poucos) Centros de Telecomunicaciones é diária.

A religiosidade se nota nas ruas, sobretudo aos sábados, quando muitos se vestem de branco da cabeça aos pés. Sâo os praticantes das santerias, que deve ser algo parecido aos terreiros espíritas brasileiros, todos de origem africana.

La Habana tem o bus turistico hop on hop off que faz um percurso básico pela cidade, infelizmente eles não fornecem o mapa à bordo por isso é bom conseguir o seu antes. 
A Plaza de la Revolución, originalmente se chamava Plaza Civica, mas acabou cobrando fama com a revolução cubana nos anos 50 e a emblemática imagem de Che Guevara na fachada do Ministerio del Interior, assim como a de Camilo Cienfuegos (ambas realizadas pelo artista Enrique Ávila).
Outro ícone do lugar, e ponto mais alto da cidade, é o Monumento a Jose Martí, mas a torre já estava fechada quando passei por ali.
Jose Martí (1853-1895) é a grande figura da história cubana, pensador, escritor, republicano democrático, uma espécie de San Martin da ilha, criador do Partido Revolucionario Cubano e atuante nos movimentos pró- independência do país. Há monumentos em sua homenagem em Nova York, México, Roma, Tampa (USA), entre outros lugares.


Saindo da etapa cultural da viagem, me entreguei à vivência caribenha "pé na areia" que eu também buscava para relaxar: Cayo Largo.
A alguns cayos de Cuba dá para chegar por terra, mas a este só se chega em avião e havia comprado o bilhete aéreo da AeroGaviota previamente pela internet pela Cuba Travel.
O voo sai de um mini aeroporto na beira de uma estrada no bairro/municipio de Miramar e em si dura menos de meia hora mas...prepare-se para atrasos inevitáveis, por ser charter o horário é marcado no dia anterior por telefone mas na hora H pode variar, a logística neste sentido deixa muito a desejar. Já a praia, não deixa nada, absolutamente nada a desejar!!


É o mar mais azul que vi na vida!!
Na areia branca de La Sirena ou Paraiso você pode ter a sorte de encontrar estrelas do mar e caracóis in natura, as palmeiras completam a paisagem de sonho e dá vontade de ficar ali por muito mais tempo. Incríveeeeel!!
Passei 2 dias incríveis ali, no Meliã Sol Cayo Largo, e o all inclusive é ótimo para esquecer a carteira e só sair com um livro e a canga; as refeições não são brilhantes mas a sequência de mojitos o dia todo e champagne no bar 24h dá uma boa compensada rsrs
A equipe do hotel super simpática e cortês e ao perceber que eu viajava sozinha, é como que duplicava a atenção comigo. 


A volta foi mais conturbada, o horário previsto do voo era 14h mas foi mudado para 17h. 
Estávamos todos reunidos no saguão esperando o transfer e descobrimos que só viria às 21h! Como já havíamos feito o check out, pedi ao gerente do hotel que nos deixasse usar os vestiários do spa para mudar de roupa e seguir usando a pisicina e o bar, pedido que foi prontamente atendido, acabamos curtindo um pouco mais de piscina e o jantar.
Quando finalmente abordamos era quase meia-noite ufffff o avião tinha 24 lugares como na ida, mas era bem mais velho, por sorte a noite estava clara e tranquila e nem se mexeu no ar.
Minha maior bronca foi ter perdido o que seria minha despedida de Cuba, um show com parte do Buena Vista social club.
Acabei emendando a volta de Cayo com a volta para o Rio e foi uma das viagens mais cansativas que já fiz: Cayo Largo-Habana, espera de madrugada no aeroporto até pegar o voo Habana-Panamá, fazer a conexão e pegar Panamá-Rio, mas.....descobrir que íamos ter que fazer uma parada técnica para abastecer em Campinas (sp) antes de seguir para o Galeão, aparentemente o voo havia feito muitos desvios na sua rota original e gastado mais combustível.
Quando pude finalmente deitar na minha cama eram 4 da madrugada, mas já não sabia de que dia. Acordei achando que era sábado até que descobri que era sexta rsrs.


Mas, valeu a pena? Valeu!!
Foi uma viagem curta e com alguns imprevistos mas com um grande conteúdo de informação interessantíssima. Muito escutamos falar de Cuba, mas ir até aí e experimentar o lugar "ao vivo", é outra coisa.
E é um lugar que te deixa saudade. 

Este post não pretende estabelecer uma discussão política, Mundo à Bessa é um blog de relatos de viagem. No entanto, para uma viajante curiosa é inevitável deixar de observar. Conversei com um casal de ingleses que haviam viajado de carro pela ilha e ficaram chocados com a pobreza, e essa condição se nota também nas ruas próximas ao centro. Em sua origem, a revolução se baseou na implantação de programas assistencialistas sociais e econômicos, notadamente alfabetização e acesso a saúde universal, o país se destaca nos esportes, por exemplo. sistema de organização da sociedade comunista que substituiria o capitalismo, com o desaparecimento das classes sociais, teve que lidar com o bloqueio comercial e a impressão que dá é que algo da proposta não funcionou pois, ainda que aparentemente menor do que no Brasil, a diferença social existe. 


Para a próxima vez, se houver, Trinidad e talvez Varadero. E mais, muito mais daquele jazz latino maravilhoso. E mais conversas com pessoas que vão cruzando o caminho e fazendo parte da jornada de conhecimento de novos lugares.
Conheci d.Rosa e sua mãe d.Petronilla, minhas anfitriãs em sua casa. Conheci Manolo, o taxista que me levou várias vezes ao centro e me falava sobre carros com uma rapidez que era um desafio à minha compreensão do sotaque cubano rsrs.
Conheci e cantei na rua com seu Argemiro, que tocava Garota de Ipanema na flauta em uma esquina, que momento mágico!
Conheci o cantor gatinho do hotel em Cayo Largo que estava doido para provar o meu "sabor a mi" rsrs, e a equipe do hotel que ficava na dúvida se eu era cubana, brasileira ou argentina rsrs.
Conheci uma família de italianos figuraça em playa Paraiso que eram pura alegria, e outra de São Paulo com mãe e filho arquitetos; conheci um casal de ingleses muito simpático que estava percorrendo o país e...gente que povo elegante né.
E conheci dois casais de argentinos que, como eu, também protestaram pelo mega atraso no voo e terminanos nos fazendo companhia durante a espera...e acharam o máximo eu falar em porteño puro! rsrs

Quem disse que eu viajo sozinha?!
Viva Cuba, adorei você!!